A escuta da Palavra de Deus conduz naturalmente a atitudes concretas de conversão. Entre essas práticas, o jejum ocupa um lugar central na tradição espiritual da Igreja.
O Papa Leão XIV explica:
“Se a Quaresma é um tempo de escuta, o jejum constitui uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra de Deus.”
Desde os primeiros séculos do cristianismo, o jejum foi entendido como um caminho de disciplina interior e de purificação do coração. Ao privar-se de algo necessário, o cristão aprende a reconhecer aquilo que realmente sustenta sua vida.
Por isso o Papa afirma:
“Precisamente porque implica o corpo, torna mais evidente aquilo de que temos ‘fome’ e o que consideramos essencial para o nosso sustento.”
O jejum também ajuda o fiel a ordenar seus desejos e a despertar o desejo pela justiça e pela vontade de Deus.
“Portanto, é útil para discernir e ordenar os ‘apetites’, para manter vigilante a fome e a sede de justiça.”
Santo Agostinho expressa essa dinâmica espiritual de forma profunda:
«Ao longo da vida terrena, cabe aos homens ter fome e sede de justiça, mas ser saciados pertence à outra vida. Os anjos saciam-se deste pão, deste alimento. Os homens, pelo contrário, sentem fome dele, estão inclinados ao seu desejo. Esta inclinação ao desejo dilata a alma, aumentando a sua capacidade».
Entretanto, o Papa recorda que o jejum deve ser vivido com humildade e unido à escuta da Palavra:
«não jejua verdadeiramente quem não sabe alimentar-se da Palavra de Deus».
Entre as formas concretas de jejum, o Papa propõe uma prática espiritual muito atual: o jejum das palavras que ferem o próximo.
Ele afirma:
“Por isso, gostaria de vos convidar a uma forma de abstinência muito concreta e frequentemente pouco apreciada, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo.”
Em uma sociedade marcada por conflitos verbais, julgamentos precipitados e discursos agressivos, essa proposta adquire grande relevância.
O Papa convida os cristãos a desarmar a linguagem:
“Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias.”
No lugar dessas atitudes, o fiel é chamado a cultivar palavras que edifiquem e promovam a paz.
“Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz.”
Dessa forma, o caminho quaresmal torna-se um verdadeiro processo de renovação interior, capaz de transformar não apenas a vida pessoal, mas também as relações humanas e a vida das comunidades cristãs.