Entre as atitudes espirituais que caracterizam a Quaresma, a escuta ocupa um lugar fundamental. Antes mesmo das práticas penitenciais, o cristão é chamado a abrir o coração para ouvir a voz de Deus.
O Papa Leão XIV destaca essa dimensão ao afirmar:
“Este ano gostaria de chamar a atenção, em primeiro lugar, para a importância de dar lugar à Palavra através da escuta, pois a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro.”
Escutar é mais do que ouvir palavras. Trata-se de uma disposição interior que permite acolher o outro e estabelecer uma verdadeira relação. Na vida espiritual, essa atitude é essencial para entrar em comunhão com Deus.
A própria revelação bíblica mostra que Deus é um Deus que escuta o sofrimento do seu povo. No livro do Êxodo, ao falar com Moisés na sarça ardente, o Senhor declara:
«Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egipto, e ouvi o seu clamor» (Ex 3, 7).
Esse gesto de escuta marca o início da libertação do povo de Israel. Deus não permanece indiferente diante da dor humana. Ele escuta, intervém e envia Moisés para conduzir o povo à liberdade.
O Papa recorda que Deus continua hoje a falar ao coração humano: “É um Deus que nos envolve e, hoje, também vem até nós com os pensamentos que fazem vibrar o seu coração.”
A escuta da Palavra na liturgia, portanto, não é apenas um momento ritual. Ela educa o cristão a olhar a realidade com os olhos de Deus e a reconhecer os sinais de sofrimento presentes no mundo.
O Papa explica: “Por isso, escutar a Palavra na liturgia educa-nos para uma escuta mais verdadeira da realidade.” Em meio a tantas vozes que influenciam a sociedade, as Sagradas Escrituras ajudam a discernir aquilo que realmente importa.
“Entre as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta.”
Assim, a escuta da Palavra conduz à responsabilidade. O cristão que escuta Deus aprende também a escutar o clamor dos pobres e daqueles que sofrem.
O Papa recorda ainda:
«a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja».