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PERMANECER FIXANDO O SEU OLHAR NO DIVINO SOL

 

“É verdade que, às vezes, o coração do passarinho se vê assaltado pela tempestade. Parece não crer que exista outra coisa além das nuvens que o envolvem. Então, é o momento da alegria perfeita para o pobrezinho tão fraco. Que felicidade para ele PERMANECER, assim mesmo, a fixar a invisível luz que se oculta à sua fé”. (Santa Teresinha)

 

O pobre passarinho precisava permanecer fixando o Sol do Amor. Existem ao menos três razões essenciais para isso, seriam elas: A primeira trata-se do brilho do Sol que encanta seus olhos; a segunda é sentir-se inspirado por contemplar os outros que se elevam até o Sol; e, uma terceira, a qual diria ter grande importância – viver um audacioso abandono, mesmo quando tudo não anda bem.

 

É inebriante e ao mesmo tempo empolgante a experiência real com Deus. É algo que brota no interior e torna-se inquietante, ao ponto de querermos exalar pra todos que encontramos, ao longo de nossa jornada, a alegria perfeita de encontrar-se com o Amor.

 

Jesus exemplifica bem esse sentimento ao contar-nos uma parábola: “O Reino dos Céus é comparável a um tesouro que estava escondido num campo e que um homem descobriu: ele o esconde novamente, e, em sua alegria, vai, põe à venda tudo o que tem e compra aquele campo” (Mt 13, 44). Este homem realmente entendeu o valor que continha este tesouro, por isso não se esquivou e logo foi vender tudo que possuía para poder adquirir este campo. O que torna este fato ainda mais interessante é que ele vai com alegria, ele não vai pensando no que tem que deixar para trás, ou vender, nada disso. Ele descobriu a essência que o motiva a investir.

 

O Senhor não conta-nos o que sucede ao homem após ter adquirido o campo, mas suponho que não havia felicidade maior. Imagino que o brilho nos seus olhos levou muitos a crerem que ele é extremamente realizado. E assim o é porque o encontro com o verdadeiro Amor o torna desse modo.

 

Certamente, ao longo da nossa caminhada, ouvimos alguém dizer: “Como você está mudado!”; “O que houve contigo? Estás tão diferente!”. Isso que as pessoas não conseguem explicar é o brilho do Sol que irradia em nosso ser. É tão forte que chega a resplandecer. Às vezes incomoda e, na maioria dos casos, atrai, seja por curiosidade ou pelo desejo que aconteça o mesmo com elas.

 

Quem dera que todos desejassem possuir ou gozar do Amor! Quanta luz haveria no mundo. Mas infelizmente estamos cercados de prazeres momentâneos nos quais as pessoas se fixam. Então o que fazer para permanecer com os olhos vidados no Sol do Amor? O ato é simples, porém perene. Precisamos permitir que todos os dias o Senhor nos conquiste, nos fascine, nos encante com sua luz radiosa. A experiência com o Amor tem um marco onde tudo se inicia, mas não para apenas num momento. A cada instante Ele revela-nos seus mistérios e nós necessitamos estar bem dispostos a acolhê-los.

 

Ainda, no nosso trajeto de experiência com Deus, também gozamos das fontes que são produzidas pelos irmãos que muito mergulham na experiência com Deus. Olhamos para eles e trazemos para nós suas aspirações, pois se tornam instrumentos de revelação e crescimento. Seus audaciosos voos nos inspiram a manter-se em nosso trajeto na busca por Deus.

 

Desde a origem vemos a criação do homem como um ser comunitário, dado a partilha, doação e abertura, tendo como exemplo a própria Trindade Santa (cf. Gn 1, 26-27). Portanto, apesar das diferenças de lugares, histórias, realidades, culturas e temperamentos, a nossa natureza nos levará a viver com tudo que somos e possuímos para proporcionar o bem comum. Para as “águias” isto deve ser bem esclarecido para que se evite o equívoco de pensar está vivendo melhor que as outras aves.

 

No entanto, aqueles que já alcançaram a santidade, como os que lutam dia a dia para alcançá-la, devem-se empenhar para nutrir, alimentar, animar, encorajar a perseverança e a fidelidade dos seus irmãos.

 

Talvez alguns de nós nos enquadremos como as águias que pairam nas alturas e outros se identifiquem como os pobres passarinhos, apenas revestidos de leve penugem. Mas todos com os mesmos anseios, a mesma meta: permanecer fixando o Sol do Amor.

 

Quanto a terceira razão, a de viver um audacioso abandono, mesmo quando tudo não anda bem, acredito que precisamos seguir os passos do nosso Senhor e o exemplo de tantos santos, que bem souberam amar a Cristo acima de tudo, independentemente do seu ânimo, ou estado emocional e psicológico.

 

É certo que no nosso chamado precisamos dar um sim para começar, mas agora frente a isso que refletimos, é preciso e diria até que crucial, dar um sim para permanecer e nesse último se faz necessário que haja a firmeza e à medida que foram dadas no princípio.

 

A consciência quanto as densas nuvens que podem surgir ao longo de nossa caminhada, poderá nos ajudar nessa experiência de permanecer. Lembro aqui alguns santos que com o seu testemunho nos ajudam a entender que a nossa permanência em Deus não consiste apenas quando estou bem ou quanto tenho algo de bom para dar a Ele. São João Evangelista, o Discípulo Amado, embora tendo o coração apertado, partido de dor, assolado pela confusão, sem compreender ao certo o que estava acontecendo, fez a opção de permanecer ao pé da Cruz, pois fortemente sentiu o amor de Deus e isso fez com que sua fé e sua confiança não desmoronassem.

 

Santa Teresinha do Menino Jesus, autora desta célebre frase postada no início, se viu algumas vezes assaltada pelas tempestades, até parecia não acreditar que pudesse existir algo por detrás das nuvens que a envolvia. Nessas horas ela pode descobrir a alegria perfeita de permanecer olhando para o invisível Sol que manteve-se a brilhar por sobre as nuvens.

 

Como eles, tantos outros souberam viver um audacioso abandono em Deus, mesmo nos seus momentos de fraqueza. Isso nos leva a crer que o permanecer, além de ser uma questão de decisão pessoal é também um modo de consolar Aquele que muito me amou e que sempre permaneceu comigo, mesmo quando eu não andava bem.

 

Acredito que a maior dificuldade para alguém que se encontra dessa forma é o “não mudar de lugar”. Tantas vezes queremos segurar as “rédeas” e comandar nossa vida. Buscamos alternativas diversas, saímos à procura de solução. Quando, na realidade, o que o Senhor quer de nós é que vivamos em plena confiança e abandono em Suas mãos, ainda que não sintamos, não ouçamos ou não desejemos mais nada.

 

É necessário aprender que mesmo nos momentos de fraquezas, ao olharmos em nossa volta e de repente deparar-nos com nossos pecados e perceber que nada de bom temos para oferecer ao Senhor, nesse momento escolher permanecer confiando, abandonando-se e segurando em Deus, e em reparação por aqueles que não suportaram e acabaram mudando de lugar, ficar ali a oferecer o meu arrependimento, a humilhação de ter traído o Amor, a súplica pelo perdão e o propósito da conversão. Desse modo será plenamente feliz por permanecer, assim mesmo, a fixar a invisível luz que se oculta a sua fé.

 

Façamos então, como esse passarinho, as nuvens densas e escuras que cobrem o Sol do Amor não podem desanimá-lo, pois ele tem a certeza que por entre as nuvens, o seu Divino Sol está a brilhar. E por esta certeza não se permitirá morrer de tristeza, vendo-se impotente. Sua aflição não resistirá à força de está vidado naquele que é a razão de sua permanência.

 

 

Ismara Gomes de Sousa

Consagrada de Vida da Comunidade Remidos no Senhor

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