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OLHAR COMO O PAI MISERICORDIOSO

 

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“Ainda estava longe, quando o pai o avistou e foi tomado de compaixão: correu, se lhe lançou ao pescoço e o cobriu de beijos”. (Lc 15,20)

 

 

Este trecho da parábola do filho reencontrado incita-nos a ver sua outra face. Somos muito tendenciosos a comparar-nos com este filho que volta. É certo que diante das nossas quedas, dos nossos pecados, o nosso coração se incline ao arrependimento e que este nos leve a voltar para o lugar de onde nunca deveríamos ter saído: os braços do Pai. Relendo este versículo salta-me forte a atitude do Pai. Por que não nos colocarmos agora deste outro lado da moeda? O Ano Santo da Misericórdia nos propôs a sermos “Misericordiosos como o Pai”. Temos nos esforçado para isso? De pé, permaneço na esperança do reencontro com o outro que volta? Sou capaz de enxergar o essencial, ou seja, para além do seu pecado? Ou me mantenho afogado nas queixas e feridas que ele me causou?

 

 

Por que o Pai o reconheceu quando o filho ainda estava longe? Certamente esse filho estava desfigurado. Sua imagem já não era mais a mesma. O pecado lhe roubara a dignidade. No seu físico, revelava-se a ausência das necessidades básicas de um ser humano: comida, bebida, vestimentas. Se de perto era difícil reconhecê-lo, imagine-se de longe! O olhar do pai misericordioso é capaz de ver mais além. Além das feridas, do pecado, da fraqueza. Ele vê o essencial. Não há indiferença em seu olhar, há saudade, esperança, compaixão. Por essa razão quando avista aquele que volta, logo corre ao seu encontro, nada o prende.

 

 

Imagino que em algumas situações o que nos impede de agir com misericórdia com o outro, são as armaduras que impomos sobre nós. Davi era um jovem habilidoso e ágil, mas quando fora colocado armaduras no seu corpo para lutar contra o Golias, nem sequer moveu-se do seu lugar. Foi necessário retirar tudo que estava sobre ele e, assim, livre poder correr rumo à vitória (cf. I Sm 17, 38ss).

 

 

Que armaduras nos impedem de sermos livres e correr ao encontro do outro? O que conseguimos ver de longe? Um coração profundamente ferido só teria duas opções: primeira, afogar-se na amargura, na indignação, nas queixas, ou seja, armar-se contra o outro com invejas, ciúmes, rivalidades, desprezo, indiferença, intolerância, impaciência. Até poderemos ver o outro, de longe, mas algumas coisas nos impedem de ir ao seu encontro. Todo esse peso que está sobre nós é que nos permite ver a nossa frente apenas um pecador, fraco, cheio de mazelas, um ingrato. Se o coração estiver completamente fechado em si, jamais conseguirá ver o essencial.

 

 

A segunda opção, mesmo estando machucado, foi à escolhida pelo pai misericordioso. Esta consiste em amá-lo não como merece, mas como manda a sua natureza, a sua essência. Seu ser necessita responder com fidelidade a um compromisso de amor. E isto faz com ele poupe aquele que errou. O pai preferiu não alimentar suas queixas e livremente corre ao encontro do filho, aquele que ele reconhece ainda estando longe. Não fixou na sua miséria, pecado ou fraqueza e sim no amor que os unia. Seu olhar estava envolto de compaixão, bondade e perdão.

 

 

O seu agir com misericórdia prevaleceu sobre o pecado e infidelidade do seu filho. Façamos como o Pai. Imitemos suas atitudes. Antes que aquele que se foi se arrependa e volte, já esteja a sua espera. Não se canse de olhar para o horizonte procurando-o. Como um guarda, mantenha-se vigiando dia e noite até que este retorne. E quando seus olhos puderem, enfim, contemplar o que desejas todos os dias, não pense em mais nada a não ser em correr ao seu encontro, lhe abraçar e cobrir-lhe de beijos.

 

 

Agir com misericórdia é assumir o perdão antes de vir o pecador arrependido. Não espere a atitude do outro. Resolva ali mesmo, no mínimo dentro de você, quando acontecer algo ruim. Não permita que o ressentimento, as dores, as tristezas, as lágrimas, lhe roube aquilo que foi infundido no mais profundo do seu ser: o Amor Misericordioso. Vivendo assim, seu olhar estará fixado na meta que é Aquele que nos inspira todas as coisas: Deus.

 

Ismara Gomes de Sousa

Consagrada de Vida da Comunidade Remidos no Senhor

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