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Enviou-me para pôr em liberdade os cativos (PARTE II)

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Concluímos o artigo anterior afirmando que pela sua morte e ressurreição, o Redentor já abriu a porta do cárcere. A esta altura, porém, emerge uma pergunta: se Cristo já nos libertou, porque ainda há tantas pessoas cativas? [1] Acredito que por pelo menos duas razões: primeiro porque a muitas delas ainda não chegou este feliz anúncio de libertação (algo semelhante a um escravo que foi alforriado, mas que não tomou conhecimento disso). Experiência análoga se deu com Santa Bahkita, uma jovem africana, que aos oito anos foi raptada e vendida como escrava sucessivas vezes, até cair nas mãos de um patrão que era católico. Foi por ele que Bahkita escutou pela primeira vez que fora liberta. “Explicou-me – diz ela – que Jesus Cristo, Filho de Deus, tinha morrido por nós. Eu não sabia quem fosse”. Quando tomou conhecimento disso, Bahkita permaneceu ainda por alguns anos escrava, mas apenas externamente. Seu interior, no entanto, começava a libertar-se.

 

O compositor Leonardo Biondo, da comunidade Shalom, possui uma música que expressa muito bem essa questão do desconhecimento do gesto salvador de Cristo.

 

“Alguém pagou um alto preço pra me resgatar. Muito mais do que eu mereço e do que possa imaginar. Pra não viver mais como escravo e sim como filho de       um rei. Numa carta de alforria, a alegria que eu sonhei. E pensar que eu não sabia…”.

 

Este parece ser o principal espanto do autor da canção: imaginar que alguém fez tanto por ele, lhe amou numa proporção desmedida sem que, contudo, ele soubesse disso. Não custa recordar que é esta a realidade de muitas pessoas atualmente. Por que nunca houve alguém que lhes anunciasse Cristo Redentor, permanecem cativas e sem esperança de libertação.

 

A segunda razão pela qual há tantas pessoas escravizadas, apesar de Cristo já nos ter libertado, penso que seja esta: é porque, ser livre, efetivamente, pressupõe uma escolha, uma decisão. Em outras palavras: Jesus já nos abriu o cárcere, resta agora querermos sair dele. Há muita gente dentro e fora da Igreja que sabe que foi liberto, mas não tomou posse da libertação para suas vidas. Resultado: são prisioneiras de cárceres abertos.

 

É necessário que aconteça algo semelhante àquele episódio em que Jesus cura um homem de lepra. O leproso diz a Jesus: “Se queres podes curar-me”, ao que Este lhe responde: “Eu quero”. Hoje, ao contrário, é o Redentor quem te diz: “Se queres podes ficar livre”. É preciso, contudo, que respondas: “Eu quero, Senhor”.

 

O pecado, a prisão, de que julgamos já não podermos libertar-nos, na maioria das vezes é porque não queremos libertar-nos. Ser livre ou não, agora, é uma questão de escolha, de vontade, para mim e para você. É curioso como o homem pode preferir o cárcere à libertação. Mas isso não é de hoje. Santo Agostinho experimentou algo semelhante em sua vida.

 

Nós não somos sacerdotes, mas agora ouviremos as Confissões (com “C” maiúsculo, entendam!). O santo filósofo, descrevendo sua luta contra a sensualidade, afirma que houve um momento em que implorava a Deus dizendo: “Concede-me castidade e continência, mas – acrescentava no íntimo uma voz – não agora!”. Até que chegou o momento em que ele gritou a si mesmo: “Porque amanhã? Porque não agora? Porque deixará este momento de marcar o fim de minha vida vergonhosa?”.

 

O que Agostinho fez naquela ocasião foi, por um ato de vontade, tomar posse da libertação já realizada por Cristo. É isto que também precisamos fazer hoje, se não quisermos desvirtuar a graça da redenção em nossa vida.

 

Na época da escravatura, os escravos eram libertados mediante uma “carta de alforria” que atestava, de ora em diante, a sua liberdade. Jesus também nos deixou uma carta de alforria: a cruz! São Paulo nos diz, escrevendo aos Colossenses, que foi nela que Cristo cancelou o documento que nos condenava, abolindo-o definitivamente (cf. 2, 14). A cruz é, portanto, o sinal e comprovante da nossa libertação.

 

A libertação que Cristo realizou não é abstrata ou subjetiva, mas real, concreta, visível, palpável até. O anúncio que Jesus fez naquela sinagoga de Nazaré, de que havia sido enviado para pôr os cativos em liberdade, tem o seu pleno e perfeito cumprimento na cruz. É ela que nos atesta de que fomos libertados.

 

Olhar para a cruz, portanto, é imprescindível, para quem quer ser verdadeiramente livre. Por vezes, o rompimento das nossas cadeias chega a ser lento e custoso. Contemplar o Crucificado nos ajuda a não perder a coragem, mas a termos plena confiança de que a força de libertação que a cruz testemunha é bem maior do que as prisões que nos escravizam.

 

Quando Jesus terminou de proclamar o texto do profeta Isaías, diz o evangelista Lucas que “todos quantos estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele”. O mesmo aconteça conosco. Todos quantos desejam ser libertos mantenham os olhos fixos no crucificado, Aquele que foi enviado pelo Pai para pôr em liberdade os cativos, pois só Ele é, e será definitivamente, o Redentor do homem.

 

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[1] Nos afetos, na sexualidade, do dinheiro, do poder, do egoísmo, da mentira, do medo, da moda, do ciúme, da autoimagem negativa etc.

 

 

Francivaldo da S. Sousa (Vavá Silva)

Consagrado de Vida – Comunidade Remidos no Senhor

 

 

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