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A ALEGRIA DO AMOR: VERDADEIRA EXPRESSÃO DO LAR DE UMA SANTA

 

 

Existem alguns fundamentos primordiais que a Igreja nos ensina e que para nós nunca deveriam ser esquecidos. O Catecismo da Igreja Católica (CIC) vai dizer que, “ao criar o homem e a mulher, Deus instituiu a família humana. Onde seus membros são pessoas iguais em dignidade, que praticam a caridade e o respeito mútuo.” (CIC 2203)

 

Sendo nós constituídos a imagem e semelhança daquele que nos criou (cf. Gn 1,26), poderíamos partir de um movimento natural que surge no seio da Trindade Santa: o amor doação. Assim, cada membro que compõe as famílias é chamado a se doar perenemente, a fim de que haja o bem dos esposos, a procriação e uma educação firme e sadia dos filhos e, ainda, partindo para além do seu convívio familiar, cultivando o cuidado e a responsabilidade pelo próximo (cf. CIC 2201 e 2208).

 

Logo, a família deve viver de maneira que seus membros cresçam em maturidade e autonomia humanas e espirituais, mas, sobretudo, que os pais favoreçam seus filhos em relação a sua vocação que vem de Deus (cf. CIC 2232). Em hipótese alguma, insinuam ou incentivem seus filhos a sonharem suas frustações, mas que estes estejam atentos à voz do Senhor.

 

Sendo assim, partilho então um reflexo de vida e família que pode nos ajudar, de forma concreta, a ordenar aquilo que por diversas circunstâncias tenha se afastado do plano de Deus. Refiro-me a história de uma família real e próxima aos nossos dias: a família Martin.

 

Para isso caminhemos rumo ao fascínio de uma encantadora cidade francesa, chamada Alençon, a qual esta família residiu boa parte dos seus anos, partindo dali apenas após a morte de sua progenitora, a senhora Zélia Guérin. Mas também, refiro-me a outra localidade: Lisieux, onde Teresinha pode crescer em estatura e maturidade.

 

Pois bem, Alençon, 13 de Julho de 1858. Luís Martin e Zélia Guérin se casam. Ele, filho de militar, exerceu por longos anos a função de relojoeiro e joalheiro, tinha seus 34 anos de idade. Ela, filha de policial, dirigia uma manufatura de renda, a qual prosperava significativamente pelo ótimo desempenho que tinha com este trabalho e, contava com a idade de 26 anos. Embora vissem seus comércios prosperarem, havia alguns aspectos comuns entre eles: eram pessoas profundamente crentes, sensíveis aos conselhos de Jesus, agiam com prudência, a fim de favorecer os mais necessitados, pois a simplicidade e pureza de seus corações os levavam a isso.

 

Enfim, é por meio dessas duas vidas que nascem nove filhos e assim, surge um lar verdadeiramente cristão. Podemos afirmar que a comunhão destes constitui uma verdadeira comunhão como a do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Pois sua atividade procriadora e educadora reflete a obra criadora do Pai. A partilha da oração e do sacrifício une-se ao do Filho. A oração cotidiana e a leitura da Palavra de Deus fortificam nela a caridade que é o próprio Espírito de Deus (cf. CIC 2205).

 

Constituir famílias como esta hoje em dia não é comum, mas também não se torna impossível, embora tenhamos um tempo mudado. Quem dera que muitos se inspirassem nesse modelo de vida cristã, onde os pais tem uma zelosa vida cristã, participando da Eucaristia diária, comungando e jejuando sempre que possível; incentivando a oração em família; além do mais, ambos tinham uma audaciosa caridade com os irmãos, principalmente, os mais necessitados. Vivendo desse modo, seus filhos eram educados e podiam exalar o mesmo perfume de ações tão extraordinárias como as dos seus pais.

 

E isto dar-se a transparecer quando ouvimos falas destes filhos para com seus pais e vice versa. Vejamos então, o que se diz deste lar familiar: ambiente este cujos valores não serão descritos pelo que é externo a ele, mas por seus próprios membros, que testemunham com naturalidade em muitos dos seus escritos.

 

Celina relata: “Quando papai comungava, permanecia silencioso em todo o trajeto de volta para casa. Ele nos dizia: eu continuo a entreter-me com Nosso Senhor”.

 

Paulina escreve: “eu sempre os considerei como santos. Estávamos penetradas de respeito e admiração por eles. Por vezes perguntava-me a mim mesma se poderia haver outros semelhantes a eles sobre a terra”. Noutro instante: “Quando pequenina mamãe punha-me sobre seus joelhos e contava-me histórias da vida dos Santos. Certa vez, disse-me que no Céu somente as virgens seguiriam por toda parte Jesus, sob a forma de Cordeiro sem mancha; seriam coroadas de rosas brancas e cantariam um cântico que outros não poderiam cantar. Eu lhe disse, então, que haveria de ser virgem, com uma bela coroa branca, e perguntei-lhe de qual cor seria a sua, pois ela me fizera notar que as pessoas casadas não teriam coroa branca. Respondeu-me que seria, sem dúvida, uma coroa de rosas vermelhas”.

 

Já a pequena Teresa esbanja em suas ricas colocações sobre seus queridos pais: “O Bom Deus deu-me um pai e uma mãe mais dignos do céu do que da terra!”; “Quando o pregador falava de Santa Teresa, papai inclinava-se para mim, dizendo baixinho: ‘Escuta, minha rainhazinha, ele fala de tua santa padroeira’. Eu escutava, com efeito, mas olhava mais vezes para papai que para o pregador. Sua bela fisionomia dizia-me tantas coisas! Por vezes, seus olhos se enchiam de lágrimas, as quais ele em vão se esforçava por reter; não parecia mais ser da terra, de tal modo sua alma gostava de mergulhar nas verdades eternas”; E ainda, “de mamãe, eu amava o sorriso, seus olhar profundo parecia dizer: “a eternidade me encanta e atrai-me, eu quero ir ao céu azul ver Deus”!

 

Em se tratando das colocações dos seus pais não há diferença em solicitudes, carinhos, amabilidade, compaixão e tantas outras qualidades.

 

Certa vez, escreve Zélia à filha Paulina: “Estou muito feliz com seu pai, pois torna a minha vida muito doce. Meu marido é um santo homem, desejo um igual a todas as mulheres”. Noutro momento ela diz: “Este ano hei de ir (no dia 8 de dezembro), bem cedinho, ter com a Santíssima Virgem. Quero ser a primeira a chegar. Não Lhe pedirei mais filhinhas; rogar-Lhe-ei somente que faça santas as que me deu, e que eu não lhes fique muito atrás; mas é necessário que elas sejam bem melhores do que eu”. “Eu amo loucamente as crianças e nasci para ter filhos”, dizia Zélia mais tarde.

 

Numa outra ocasião escreverá Zélia a sua filha Paulina: “Teu pai tinha gostos semelhantes aos meus, nossos sentimentos eram em uníssono, ele sempre foi um consolo e apoio para mim. E, quando foram chegando nossos filhos, vivíamos mais para eles, eram nossa felicidade e não nos encontrávamos em nós, mas, neles. Por isso desejava ter muitos para os encaminhar ao céu”.

 

Luís escreveu às três filhas carmelitas: “Devo dizer-vos, minhas queridas filhas, que sou obrigado a agradecer e fazer-vos agradecer ao bom Deus, porque eu sinto que nossa família, apesar de tão humilde, tem a honra de ser privilegiada por nosso adorável Criador”.

 

Zélia Guérin revela o amor que tem por seu marido em suas cartas: “Tua mulher que te ama mais do que a vida”, “Eu te abraço como eu te amo”.

 

Escreve o Sr. Luís Martin à sua esposa: “Só poderei chegar segunda-feira, tarda-me estar ao seu lado. Não se canse demais, recomendo-lhe calma e moderação, espero em Deus chegaremos a construir uma boa casinha. Tive a felicidade de comungar em Nossa Senhora das Vitórias, que é como um paraíso terrestre. Acendi uma vela por toda a família. Abraço de coração a todas, esperando a alegria de estarmos reunidos. Seu marido e verdadeiro amigo, que a ama por toda a vida”.

 

Por meio desses inúmeros trechos, torna-se nítido a suavidade e o virtuoso relacionamento entre os membros que compõem esta bela família. Vai se notando que aquilo que foi sendo plantado e cultivado durante a vida destes, como a busca pela santidade, o amor a Deus e aos irmãos, o zelo pela Igreja e a busca dos sacramentos, entre tantos, nada e ninguém poderá roubar, pois foi gravado na alma.

 

Por fim, alerto aos pais a estarem atentos às necessidades diversas de seus filhos e não fechar os olhos para seus defeitos, pois quando corrigidos desde cedo, com delicadeza e cuidado, estes poderão tornar-se muito virtuosos. Outra coisa, a vida é para quem sabe viver. Não adiante termos uma grande riqueza por determos nosso tempo em trabalhos, quando aqueles que mais necessitam de nós estão em casa, carentes de atenção e cuidado. Eu digo, sem receio, gaste tempo com eles, ensine, brinque, empenhem-se em fazê-los um ornamento dos céus.

 

Filhos estejam bem atentos às necessidades de seus pais e dos irmãos durante toda a vida. Não é uma troca de favores, pois estes não vos devem nada, mas sim uma oportunidade     que o Senhor vos dar de serem solícitos e dedicados, podendo-se revelar-se como filhos e irmãos verdadeiramente cristãos.

 

Ainda, nos seus escritos, Santa Teresinha diz: “Com uma natureza como a minha, se tivesse sido educada por pais sem virtudes, ter-me-ia tornado bem má, talvez me perdendo. Mas Jesus velava por mim, Ele queria que tudo revertesse em meu bem, mesmo os meus defeitos, os quais, cedo reprimidos, me serviriam para adiantar-me na perfeição”.

 

Destarte, que o exemplo desta família nos estimule a cumprirmos o nosso papel com igual dignidade e caridade, provando da verdadeira alegria que brota de um lar santificado.

 

Santa Teresinha do Menino Jesus, rogai por nossas vocações e missões!

 

 

Ismara Gomes de Sousa

Consagrada de vida na Comunidade Remidos no Senhor

 

 

 

Referências Bibliográficas:

Revista Arautos do Evangelho, Agosto/2006;

Obras completas de Teresa de Lisieux, Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face. 1ª. ed., São Paulo: Paulus, 2002;

História de uma alma: manuscritos autobiográficos, Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face. 2ª. ed., São Paulo: Paulus, 2008.

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